Leia o seguinte excerto da obra Bicicleta à chuva e repare nas expressões a negrito e no vocabulário a azul:
— (...) O Frederico está cheio de febre, não vem.
— A sério? Ontem não se notava nada…
— Pois não. Mas o pior é que ouvi uns zunzuns, parece que vamos ter teste surpresa a Português. E ele é o delegado de turma, o nosso sindicalista!
— Estou tramado, então. Ainda nem acabei de ler o livro!
— Que cena, Jaime! É tão fininho!
Encolhi os ombros. Bem sabia que o texto até era pequeno e giro de ler, mas distraía-me com imensa facilidade. Bastava lembrar-me dos Alcaides e ficava logo com a cabeça na lua, ou melhor, no inferno. Se contasse para alguma coisa, podia mostrar à stora as ilustrações que fizera da parte já lida, nisso ia muito adiantado.
Sentámo-nos, como de costume, uma ao lado do outro. À nossa frente, o lugar do Frederico vazio. Olhei para a professora e desconfiei logo do sorriso quase trocista. Era mesmo verdade, íamos ter um teste surpresa, mas não sobre o livro. Gramática, disse ela, indiferente aos nossos protestos.
Tive de fazer um enorme esforço para me concentrar nas perguntas. Talvez conseguisse safar-me se lesse tudo com atenção. A minha mãe diz que a Gramática é intuitiva, que sabemos logo se o que escrevemos está no certo ou não pela forma como soa. Não mo parece… Quando entreguei o teste, só tinha uma certeza: andava mesmo a estudar pouco!
Começar o dia assim era desastroso, mas eu até nem me podia queixar muito. Quando percebemos, eu e a Teresa, que o Sebastian estava em pânico, deixei de me afligir. É que o Sebastian, sendo filho de um português e de uma inglesa, sempre estudou fora e aterrou na nossa querida turma do 6ºC de paraquedas, em setembro.
— Acho que só fiz asneiras —gemeu, enquanto consultava à pressa os apontamentos.
— Pronto, já sei que falhei aquela do mais-que-perfeito.
— Deixa isso, Sebastian, tu tens desconto por vires de Inglaterra, nós é que estamos mal —sossegou-o a Teresa.
— Isso é o passado do passado, não é?
— Olhem, quem está passado sou eu —desabafei, pois nem me tinha apercebido de uma pergunta com aquele tempo verbal.
— Ou melhor, para ver se passo o ano, tenho de me organizar melhor… Dizem que o 7º ano puxa por nós, não é? Então, já vou arrastar pelo chão!
(...)
— O que se passa contigo? Andas assim meio esquisito.
— Não ves que nem sequer dei pelo prefeito-mais-que-sei-lá-o-quê? Não acredito que dê para positiva, é só isso.
Adaptado de Fonseca Santos, Margarida (2015): Bicicleta à chuva. Amadora: Booksmile. (p.21-23)